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Madeira: calamidade não declarada

2010-03-10

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O povo madeirense é um povo de força, arregaçou as mangas e limpou a Cidade. Mas recuperar do susto vai demorar.

10 horas da manhã: chove. Não há luz nem água. Há algo de estranho neste dia, alguma coisa se passa e parece que me passa ao lado. E passou… na rádio, a pilhas escondida na gaveta dos arrumos, ouve-se barbaridades como estradas inundadas, casas que ruíram, carros que foram arrastados pela força das águas e pessoas desaparecidas. Barbaridades, dizia eu. Era verdade, o Funchal estava a ser devastado por enxurradas. A Cidade era alvo de destruição, devastação, inundada pela força das águas que vieram das montanhas. A estrada principal que liga à minha rua tem cerca de dois metros de altura de água. Não podemos sair de casa, não há estradas. As pessoas ligam para a rádio para contar o que vêem, é quase impossível de acreditar que esteja mesmo a acontecer. Contactar os familiares e amigos é difícil, não há telemóveis.

Santa Luzia, São João e João Gomes são as três ribeiras principais do Funchal e a água das mesmas corre pelas ruas principais da Cidade, quando não era suposto. Pessoas desaparecidas, levadas pela força da água, carros destruídos, arrastados, casas que desapareceram dos montes, é este o cenário. À noite, em casa de familiares, vêem-se as primeiras imagens de devastação. Incrédulos, olhamos para o ecrã como se se tratasse de uma mentira. O Funchal é, neste momento, um manto de terra, lama, pedra e água suja. As autoridades avançam com o alerta para que a população não saia de suas casas, há risco de derrocadas em vários pontos da Ilha. Passa-se a noite em branco.

Amanhece, vamos em busca de um supermercado aberto. Já não há garrafões de água, compram-se garrafas de qualquer marca e os preços não interessam. Cerca de 30 por cento da população não tem água potável. As filas nas caixas do supermercado são enormes, mas espera-se, e o caos instala-se em menos de 30 minutos, empurra daqui e dali. Paga a água rumo a casa.

Sem mãos a medir a população sai à rua e começam os trabalhos de limpeza. Lojas cobertas de lama, colecções perdidas, stocks destruídos e inicia-se a polémica dos parques de estacionamento completamente alagados até aos tectos. Fazem as contas e lançam os "primeiros" números, 42 vítimas mortais, 248 desalojados e 120 feridos. Sobre os centros comerciais, os "relatos oficiais" dizem que está tudo bem e que não há vítimas, mas há quem diga o contrário. O povo desconfia. Os dias foram passando e as autoridades continuam a revelar os mesmos números, os iniciais. Encontram-se várias viaturas destruídas debaixo dos escombros, encontram-se vítimas, o terror instalou-se e não há palavras para o que se passa. A desconfiança sobre uma gravidade ainda maior instala-se. Continuam a encontrar corpos nos escombros, mas os números mantêm-se, e atribuem-se culpas e desculpas.

Estamos perante uma calamidade não declarada. Diz-se por aí que não vai afectar o turismo, mas, na verdade, a economia madeirense está em risco. Luta-se para salvaguardar a imagem da Madeira. O povo português começa a agir, o Governo Central visita a terra e faz as contas, é hora de erguer o que foi destruído. Resta aos madeirenses reconstruir a terra que os viu nascer.

Apela-se para que, solidariamente, as pessoas visitem a Madeira, trazendo receitas para a Região. O povo madeirense é um povo de força, arregaçou as mangas e limpou a Cidade. Mas recuperar do susto vai demorar. Há uns dias ajudávamos o Haiti, agora somos nós que precisamos de ajuda.



Autor
Neuza Correia

Categoria
Opinião

Palavras-Chave
água / Cidade / povo / força / Funchal / pessoas / Madeira / casas / casa / madeirense

Entidades
Barbaridades / Cidade / Funchal / Santa Luzia / São João

Artigo Preservado pelo Arquivo.pt
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